Antes do Baile Verde





O rancho azul e branco desfilava com seus passistas vestidos à Luís xv e sua porta-estandarte
de peruca prateada em forma de pirâmide, os cachos desabados na
testa, a cauda do vestido de cetim arrastando-se enxovalhada pelo asfalto. O negro
do bumbo fez uma profunda reverência diante das duas mulheres debruçadas na
janela e prosseguiu com seu chapéu de três bicos, fazendo rodar a capa
encharcada de suor.

— Ele gostou de você — disse a jovem voltando-se para a mulher que ainda
aplaudia. — O cumprimento foi na sua direção, viu que chique?
A preta deu uma risadinha.

— Meu homem é mil vezes mais bonito, pelo menos na minha opinião. E já
deve estar chegando, ficou de me pegar às dez na esquina. Se me atraso, ele
começa a encher a caveira e pronto, não sai mais nada.
A jovem tomou-a pelo braço e arrastou-a até a mesa de cabeceira. O quarto
estava revolvido como se um ladrão tivesse passado por ali e despejado caixas e
gavetas.

— Estou atrasadíssima, Lu! Essa fantasia é fogo… Tenha paciência, mas você
vai me ajudar um pouquinho.

— Mas você ainda não acabou?
Sentando-se na cama, a jovem abriu sobre os joelhos o saiote verde. Usava
biquíni e meias rendadas também verdes.

— Acabei o quê! Falta pregar tudo isso ainda, olha aí… Fui inventar um raio de
pierrete dificílima!
A preta aproximou-se, alisando com as mãos o quimono de seda brilhante.
Espetado na carapinha trazia um crisântemo de papel crepom vermelho. Sentou-se
ao lado da moça.


— O Raimundo já deve estar chegando, ele fica uma onça se me atraso. A
gente vai ver os ranchos, hoje quero ver todos.

— Tem tempo, sossega — atalhou a jovem. Afastou os cabelos que lhe caíam
nos olhos. Levantou o abajur que tombou na mesinha. — Não sei como fui me
atrasar desse jeito.

— Mas não posso perder o desfile, viu, Tatisa? Tudo, menos perder o desfile!

— E quem está dizendo que você vai perder?
A mulher enfiou o dedo no pote de cola e baixou-o de leve nas lantejoulas do
pires. Em seguida, levou o dedo até o saiote e ali deixou as lantejoulas formando
uma constelação desordenada. Colheu uma lantejoula que escapara e
delicadamente tocou com ela na cola. Depositou-a no saiote, fixando-a com
pequenos movimentos circulares.

— Mas se tiver que pregar as lantejoulas em todo o saiote…

— Já começou a queixação? Achei que dava tempo e agora não posso largar a
coisa pela metade, vê se entende! Você ajudando vai num instante, já me pintei,
olha aí, que tal minha cara? Você nem disse nada, sua bruxa! Hein?… Que tal?

— Ficou bonito, Tatisa. Com o cabelo assim verde você está parecendo uma
alcachofra, tão gozado. Não gosto é desse verde na unha, fica esquisito.
Num movimento brusco, a jovem levantou a cabeça para respirar melhor.
Passou o dorso da mão na face afogueada.

— Mas as unhas é que dão a nota, sua tonta. É um baile verde, as fantasias
têm que ser verdes, tudo verde. Mas não precisa ficar me olhando, vamos, não
pare, pode falar, mas vá trabalhando. Falta mais da metade, Lu!

— Estou sem óculos, não enxergo direito sem os óculos.

— Não faz mal — disse a jovem limpando no lençol o excesso de cola que lhe
escorreu pelo dedo. — Vá grudando de qualquer jeito que lá dentro ninguém vai
reparar, vai ter gente à beça. O que está me endoidando é este calor, não aguento
mais, tenho a impressão de que estou me derretendo, você não sente? Calor
bárbaro!
A mulher tentou prender o crisântemo que resvalara para o pescoço. Franziu a
testa e baixou o tom de voz.

— Estive lá.

— E daí?

— Ele está morrendo.
Um carro passou na rua, buzinando freneticamente. Alguns meninos puseramse
a cantar aos gritos, o compasso marcado pelas batidas numa panela: A coroa do
rei não é de ouro nem de prata…

— Parece que estou num forno — gemeu a jovem dilatando as narinas
porejadas de suor. — Se soubesse, teria inventado uma fantasia mais leve.

— Mais leve do que isso? Você está quase nua, Tatisa. Eu ia com a minha
havaiana, mas só porque aparece um pedaço da coxa o Raimundo implica. Imagine
você então…
Com a ponta da unha, Tatisa colheu uma lantejoula que se enredara na renda
da meia. Deixou-a cair na pequena constelação que ia armando na barra do saiote
e ficou raspando pensativamente um pingo ressequido de cola que lhe caíra no
joelho. Vagava o olhar pelos objetos, sem fixar-se em nenhum. Falou num tom
sombrio:

— Você acha, Lu?

— Acha o quê?

— Que ele está morrendo?

— Ah, está sim. Conheço bem isso, já vi um monte de gente morrer, agora já
sei como é. Ele não passa desta noite.

— Mas você já se enganou uma vez, lembra? Disse que ele ia morrer, que
estava nas últimas… E no dia seguinte ele já pedia leite, radiante.

— Radiante? — espantou-se a empregada. Fechou num muxoxo os lábios
pintados de vermelho-violeta. — E depois, eu não disse não senhora que ele ia
morrer, eu disse que ele estava ruim, foi o que eu disse. Mas hoje é diferente,
Tatisa. Espiei da porta, nem precisei entrar para ver que ele está morrendo.

— Mas quando fui lá ele estava dormindo tão calmo, Lu.

— Aquilo não é sono. É outra coisa.
Afastando bruscamente o saiote aberto nos joelhos, a jovem levantou-se. Foi
até a mesa, pegou a garrafa de uísque e procurou um copo em meio da desordem
dos frascos e caixas. Achou-o debaixo da esponja de arminho. Soprou o fundo cheio
de pó de arroz e bebeu em largos goles, apertando os maxilares. Respirou de boca
aberta. Dirigiu-se à preta.

— Quer?

— Tomei muita cerveja, se misturo dá ânsia.
A jovem despejou mais uísque no copo.

— Minha pintura não está derretendo? Veja se o verde dos olhos não borrou…
Nunca transpirei tanto, sinto o sangue ferver.

— Você está bebendo demais. E nessa correria… Também não sei por que essa
invenção de saiote bordado, as lantejoulas vão se desgrudar todas no aperto. E o
pior é que não posso caprichar, com o pensamento no Raimundo lá na esquina…

— Você é chata, não, Lu? Mil vezes fica repetindo a mesma coisa, taque-taquetaque-taque!
Esse cara não pode esperar um pouco?
A mulher não respondeu. Ouvia com expressão deliciada a música de um bloco
que passava já longínquo. Cantarolou em falsete: Acabou chorando… acabou
chorando…

— No outro carnaval entrei num bloco de sujos e me diverti à grande. Meu
sapato até desmanchou de tanto que dancei.

— E eu na cama, podre de gripe, lembra? Neste quero me esbaldar.

— E seu pai?
Lentamente a jovem foi limpando no lenço as pontas dos dedos
esbranquiçados de cola. Tomou um gole de uísque. Voltou a afundar o dedo no
pote.

— Você quer que eu fique aqui chorando, não é isso que você quer? Quer que
eu cubra a cabeça com cinza e fique de joelhos rezando, não é isso que você está
querendo? — Ficou olhando para a ponta do dedo coberto de lantejoulas. Foi
deixando no saiote o dedal cintilante. — Que é que eu posso fazer? Não sou Deus,
sou? Então? Se ele está pior, que culpa tenho eu?

— Não estou dizendo que você é culpada, Tatisa. Não tenho nada com isso,
ele é seu pai, não meu. Faça o que bem entender.

— Mas você começa a dizer que ele está morrendo!

— Pois está mesmo.

— Está nada! Também espiei, ele está dormindo, ninguém morre dormindo
daquele jeito.

— Então não está.

A jovem foi até a janela e ofereceu a face ao céu roxo. Na calçada, um bando
de meninos brincava com bisnagas de plástico em formato de banana, esguichando
água um na cara do outro. Interromperam a brincadeira para vaiar um homem que
passou vestido de mulher, pisando para fora nos sapatos de saltos altíssimos.
“Minha lindura, vem comigo, minha lindura!”, gritou o moleque maior, correndo
atrás do homem. Ela assistia à cena com indiferença. Puxou com força as meias
presas aos elásticos do biquíni.

— Estou transpirando feito um cavalo. Juro que se não tivesse me pintado, me
metia agora num chuveiro, besteira a gente se pintar antes.

— E eu não aguento mais de sede — resmungou a empregada arregaçando as
mangas do quimono. — Ai! uma cerveja bem geladinha. Gosto mesmo é de
cerveja, mas o Raimundo prefere cachaça. No ano passado ele ficou de porre os
três dias, fui sozinha no desfile. Tinha um carro que foi o mais bonito de todos,
representava um mar. Você precisava ver aquele monte de sereias enroladas em
pérolas. Tinha pescador, tinha pirata, tinha polvo, tinha tudo! Bem lá em cima,
dentro de uma concha abrindo e fechando, a rainha do mar coberta de joias…

— Você já se enganou uma vez — atalhou a jovem. — Ele não pode estar
morrendo, não pode. Também estive lá antes de você, ele estava dormindo tão
sossegado. E hoje cedo até me reconheceu, ficou me olhando, me olhando e depois
sorriu. Você está bem papai?, perguntei e ele não respondeu mas vi que entendeu
perfeitamente o que eu disse.

— Ele se fez de forte, coitado.

— De forte, como?
— Sabe que você tem o seu baile, não quer atrapalhar.

— Ih, como é difícil conversar com gente ignorante — explodiu a jovem,
atirando no chão as roupas amontoadas na cama. Revistou os bolsos de uma calça
comprida. — Você pegou meu cigarro?

— Tenho minha marca, não preciso dos seus.

— Escuta, Luzinha, escuta — começou ela, ajeitando a flor na carapinha da
mulher. — Eu não estou inventando, tenho certeza de que ainda hoje cedo ele me
reconheceu. Acho que nessa hora sentiu alguma dor porque uma lágrima foi
escorrendo daquele lado paralisado. Nunca vi ele chorar daquele lado, nunca.
Chorou só daquele lado, uma lágrima tão escura…

— Ele estava se despedindo.

— Lá vem você de novo, merda! Pare de bancar o corvo, até parece que você
quer que seja hoje. Por que tem que repetir isso, por quê?

— Você mesmo pergunta e não quer que eu responda. Não vou mentir, Tatisa.
A jovem espiou debaixo da cama. Puxou um pé de sapato. Agachou-se mais,
roçando os cabelos verdes no chão. Levantou-se, olhou em redor. E foi-se
ajoelhando devagarinho diante da preta. Apanhou o pote de cola.

— E se você desse um pulo lá só para ver?

— Mas você quer ou não que eu acabe isto? — a mulher gemeu exasperada,
abrindo e fechando os dedos ressequidos de cola. — O Raimundo tem ódio de
esperar, hoje ainda apanho!
A jovem levantou-se. Fungou, andando rápido num andar de bicho na jaula.
Chutou o sapato que encontrou no caminho.

— Aquele médico miserável. Tudo culpa daquela bicha. Eu bem disse que não
podia ficar com ele aqui em casa, eu disse que não sei tratar de doente, não tenho
jeito, não posso! Se você fosse boazinha, você me ajudava, mas você não passa de
uma egoísta, uma chata que não quer saber de nada. Sua egoísta!

— Mas, Tatisa, ele não é meu pai, não tenho nada com isso, até que ajudo
muito sim senhora, como não? Todos esses meses quem é que tem aguentado o
tranco? Não me queixo porque ele é muito bom, coitado. Mas tenha a santa
paciência, hoje não! Já estou fazendo demais aqui plantada quando devia estar na
rua.
Com um gesto fatigado, a jovem abriu a porta do armário. Olhou-se no
espelho. Beliscou a cintura.

— Engordei, Lu.

— Você, gorda? Mas você é só osso, menina. Seu namorado não tem onde
pegar. Ou tem?
Ela ensaiou com os quadris um movimento lascivo. Riu. Os olhos animaram-se:

— Lu, Lu, pelo amor de Deus, acabe logo que à meia-noite ele vem me buscar.
Mandou fazer um pierrô verde.

— Também já me fantasiei de pierrô. Mas faz tempo.

— Vem num Tufão, viu que chique?

— Que é isso?

— É um carro muito bacana, vermelho. Mas não fique aí me olhando, depressa,
Lu, você não vê que… — Passou ansiosamente a mão no pescoço. — Lu, Lu, por
que ele não ficou no hospital?! Estava tão bem no hospital…

— Hospital de graça é assim mesmo, Tatisa. Eles não podem ficar a vida
inteira com um doente que não resolve, tem doente esperando até na calçada.

— Há meses que venho pensando nesse baile. Ele viveu sessenta e seis anos.
Não podia viver mais um dia?
A preta sacudiu o saiote e examinou-o a uma certa distância. Abriu-o de novo
no colo e inclinou-se para o pires de lantejoulas.

— Falta só um pedaço.

— Um dia mais…

— Vem me ajudar, Tatisa, nós duas pregando vai num instante.
Agora ambas trabalhavam num ritmo acelerado, as mãos indo e vindo do pote
de cola ao pires e do pires ao saiote, curvo como uma asa verde pesada de
lantejoulas.

— Hoje o Raimundo me mata — recomeçou a mulher, grudando as lantejoulas
meio ao acaso. Passou o dorso da mão na testa molhada. Ficou com a mão parada
no ar. — Você não ouviu?
A jovem demorou para responder.

— O quê?

— Parece que ouvi um gemido.
Ela baixou o olhar.

— Foi na rua.
Inclinaram as cabeças irmanadas sob a luz amarela do abajur.

— Escuta, Lu, se você pudesse ficar hoje, só hoje — começou ela num tom
manso. Apressou-se: — Eu te daria meu vestido branco, aquele meu branco, sabe
qual é? E também os sapatos, estão novos ainda, você sabe que eles estão novos.
Você pode sair amanhã, você pode sair todos os dias, mas pelo amor de Deus, Lu,
fica hoje!
A empregada sorriu, triunfante.

— Custou, Tatisa, custou. Desde o começo eu já estava esperando. Ah, mas
hoje nem que me matasse eu ficava, hoje não. — O crisântemo caiu enquanto ela
sacudia a cabeça. Prendeu-o com um grampo que abriu entre os dentes. — Perder
esse desfile? Nunca! Já fiz muito — acrescentou sacudindo o saiote. — Pronto, pode
vestir. Está um serviço porco mas ninguém vai reparar.

— Eu podia te dar o casaco azul — murmurou a jovem, limpando os dedos no
lençol.

— Nem que fosse para ficar com meu pai eu ficava, ouviu isso, Tatisa? Nem
com meu pai, hoje não.
Levantando-se de um salto, a moça foi até a garrafa e bebeu de olhos
fechados mais alguns goles. Vestiu o saiote.

— Brrrr! Esse uísque é uma bomba — resmungou, aproximando-se do espelho.

— Anda, venha aqui me abotoar, não precisa ficar aí com essa cara. Sua chata.
A mulher tateou os dedos por entre o tule.

— Não acho os colchetes.
A jovem ficou diante do espelho, as pernas abertas, a cabeça levantada. Olhou
para a mulher através do espelho:

— Morrendo coisa nenhuma, Lu. Você estava sem os óculos quando entrou no
quarto, não estava? Então não viu direito, ele estava dormindo.

— Pode ser que me enganasse mesmo.

— Claro que se enganou! Ele estava dormindo.
A mulher franziu a testa, enxugando na manga do quimono o suor do queixo.
Repetiu como um eco:

— Estava dormindo, sim.

— Depressa, Lu, faz uma hora que está com esses colchetes!

— Pronto — disse a outra, baixinho, enquanto recuava até a porta. — Não
precisa mais de mim, não é?

— Espera! — ordenou a moça perfumando-se rapidamente. Retocou os lábios,
atirou o pincel ao lado do vidro destapado. — Já estou pronta, vamos descer
juntas.

— Tenho que ir, Tatisa!

— Espera, já disse que estou pronta — repetiu, baixando a voz. — Só vou
pegar a bolsa…

— Você vai deixar a luz acesa?

— Melhor, não? A casa fica mais alegre assim.
No topo da escada ficaram mais juntas. Olharam na mesma direção: a porta
estava fechada. Imóveis como se tivessem sido petrificadas na fuga, as duas
mulheres ficaram ouvindo o relógio da sala. Foi a preta quem primeiro se moveu. A
voz era um sopro:

— Quer ir dar uma espiada, Tatisa?

— Vá você, Lu…
Trocaram um rápido olhar. Bagas de suor escorriam pelas têmporas verdes da
jovem, um suor turvo como o sumo de uma casca de limão. O som prolongado de
uma buzina foi-se fragmentando lá fora. Subiu poderoso o som do relógio.
Brandamente a empregada desprendeu-se da mão da jovem. Foi descendo a
escada na ponta dos pés. Abriu a porta da rua.

— Lu! Lu! — a jovem chamou num sobressalto. Continha-se para não gritar. —
Espera aí, já vou indo!
E apoiando-se ao corrimão, colada a ele, desceu precipitadamente. Quando
bateu a porta atrás de si, rolaram pela escada algumas lantejoulas verdes na

mesma direção, como se quisessem alcançá-la.


Lygia Fagundes Telles




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